O Que há de Errado com o Apelo na Pregação? – Por Roberto Aguiar

O Que há de Errado com o Apelo na Pregação?

“A simples aceitação de um ensinamento verdadeiro sobre a pessoa de Cristo, sem o coração ter sido ganho por Ele, e a vida ter sido devotada a Ele, é apenas mais outra etapa deste caminho “que ao homem parece direito”, mas cujo fim “são caminhos da morte”.  A.W. Pink

Ao contrário do que a maioria de nós crentes imagina, o apelo feito no final do culto para que o perdido entregue sua vida à Cristo, é uma prática relativamente nova, portanto completamente desconhecida dos apóstolos. Durante seus primeiros 1.800 anos, o cristianismo se desenvolveu sem a famosa ajuda do apelo, “Quem quiser aceitar Jesus, levante sua mão”. Há propósito, alguém já encontrou o termo, “Aceite a Cristo” no novo testamento?

“Foram os Metodistas e os Evangelistas reavivalistas do século XVIII que deram luz a esta novidade no cristianismo que se chama de “apelo”. Esta prática de convidar pessoas que desejam orações a colocar-se de pé e vir à frente para recebê-las surgiu de um evangelista Metodista chamado Lorenzo Dow. Posteriormente o reverendo James Taylor foi um dos primeiros a chamar pessoas para virem à frente em sua igreja em 1785 no Tennessee. O primeiro uso do altar de que se tem registro com relação a um convite público aconteceu em 1799 em um acampamento metodista em Rio Vermelho, Kentucky, E.U.A.  [117]

Mais tarde, em 1807 na Inglaterra, os metodistas criaram o “banco de penitentes”. [118] Agora, os pecadores ansiosos tinham um local para confessar seus pecados ao serem convidados para vir à frente. Este método chegou aos Estados Unidos dentro de poucos anos. O evangelista Charles Finney (1792-1872) acatou este “banco de penitentes”. Finney começou a usar este método a partir de sua famosa cruzada de 1830 em Rochester, Nova Iorque. [119] O “banco de penitentes” localizava-se defronte ao lugar onde os pregadores se postavam no púlpito. 120[120] Ali tanto pecadores como santos carentes eram convidados a ir à frente para receber as orações do ministro. [121] Finney elevou o “apelo ao altar” ao nível de uma obra de arte. Seu método consistia em pedir àqueles que queriam ser salvos para que se levantassem e fossem à frente. Finney tornou esse método tão popular que “após 1835, chegou a ser um elemento indispensável no moderno evangelismo”. [122]

Charles Grandison Finney

Charles Finney (1792-1872)

Com o tempo, esse “banco de penitentes” dos acampamentos feito em fazendas e beira de estradas foi substituído pelo “altar” no salão da igreja. O “caminho de serragem” usado nos acampamentos deu lugar ao corredor da igreja. Assim, pois, surgiu o famoso “apelo ao altar”. [124] Talvez o elemento mais dominante proporcionado por Finney ao moderno cristianismo foi o pragmatismo. Por pragmatismo quero dizer a crença de que se algo funciona ou dá resultados, então deve ser apoiado ou aceito. Finney acreditava que o NT não ensinava nenhuma forma determinada de adoração. [125] Ele ensinava que o único propósito da pregação é ganhar almas. Qualquer mecanismo que ajudasse atingir esta meta poderia ser aceito. [126] Sob Finney, o evangelismo do século XVIII se converteu em uma ciência e foi integrado à corrente principal das igrejas. [127] O cristianismo moderno nunca se recuperou desta ideologia antiespiritual. É o pragmatismo, não a Bíblia ou a espiritualidade, que governa as atividades da maioria das igrejas modernas. (Posteriormente as igrejas atentas aos seus “índices de audiência” foram além de Finney). O pragmatismo é daninho porque ensina que “os fins justificam os meios”. Se o fim é considerado “santo”, qualquer “meio” é válido. Por estas razões Charles Finney é aclamado como “o reformador litúrgico mais influente na história da igreja americana”, [e em conseqüência, da igreja moderna]. [128] Do ponto de vista do genuíno protestantismo, é necessário que a doutrina esteja rigorosamente de acordo com as escrituras para poder ser aceita. Mas pela prática da igreja, tudo é válido desde que resulte em novas conversões! Em todos os aspectos, o Evangelismo reavivalista converteu a igreja em um ponto de pregação, restringindo a experiência da ekklesia a uma missão evangelística. [129] Isto normatizou os métodos reavivalísticos de Finney e criou personalidades do púlpito como a atração dominante. A igreja passou a ser uma questão de preferência individual em vez de ser uma questão coletiva. [130]

Em outras palavras, a meta dos reavivalistas era levar pecadores individualmente a uma decisão individual, por meio de uma fé individualista. Como resultado, a meta da Igreja Primitiva — a edificação mútua e o funcionamento de cada membro manifestando Jesus Cristo coletivamente diante dos principados e potestades — perdeu-se completamente. [131] Ironicamente, João Wesley, [a quem muito admiro],um dos primeiros reavivalistas, compreendeu os perigos do movimento reavivalista. Ele escreveu que “o cristianismo é essencialmente uma religião social […] transformá-lo em uma religião solitária é certamente sua destruição”. [132] O último tempero que o Reavivalismo agregou à liturgia protestante foi fazer o “apelo ao altar” após um hino. Esta é a liturgia que domina o protestantismo até hoje”.

Frank A. Viola

O texto acima introduz um pouco de luz sobre o tema, nos fornecendo mais condições de entender alguns fatores pelo qual as coisas se encontram como estão. A problemática do apelo, é que numa área de extrema complexidade, a salvação do indivíduo, ele apela para um recurso extra bíblico. O apelo também não leva em consideração a necessidade de arrependimento do pecador, como condição para a sua salvação, como as escrituras determinam, “Disse Jesus: Se não se arrependerem, todos de igual modo perecerão”.Lucas 13:3. Mas alguém pode observar, “mas o que pode haver de errado em algo que é extra bíblico, se esse recurso ajuda as almas a se encontrarem com o salvador?” Realmente ajudaria se não atrapalhasse. O apelo acelera um processo que jamais poderia ser apressado. No evangelho, Jesus ensina justamente o oposto:

“Grandes multidões estavam seguindo Jesus. Então Ele fez um discurso assim: “Todo aquele que quer ser meu seguidor deve amar-Me bem mais do que ao seu pai, mãe, esposa, filhos, irmãos ou irmãs – sim, mais do que a própria vida; caso contrário, não pode ser meu discípulo.

E ninguém pode ser meu discípulo se não carregar sua própria cruz e seguir-Me. Mas é preciso pensar muito antes de resolver. Pois quem começaria a construção de um edifício sem primeiro fazer os cálculos e depois verificar se tem dinheiro suficiente para pagar as contas! Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, então todo mundo se riria dele! Estão vendo aquele sujeito ali diriam em tom de gozação: ‘Começou aquela construção e ficou sem dinheiro antes de terminar!’

E qual é o rei que algum dia pensou em ir à guerra sem primeiro sentar-se com os seus conselheiros e discutir se seu exército de 10.000 tem força suficiente para derrotar os 20.000 homens que vêm marchando contra ele’! Se acharem que não, enquanto as tropas inimigas ainda vêm longe, ele mandará uma comissão para combinar as condições de paz. “Assim ninguém pode ser meu discípulo se primeiro não resolver abrir mão de todas as outras coisas, por mim”.

Lucas 14: 25 a 33

Observe que apesar da missão do messias ser fundamentalmente o resgate da humanidade, em momento algum ele minimiza ou rebaixa o padrão pelo qual os homens devem recebê-lo.  Querer resolver tudo em um só evento, em algo de tamanha magnitude, é um erro crasso, é o calcanhar de Aquiles  da pregação do evangelho.  A verdadeira conversão é algo muito mais superior e complexo do que a nossa vã teologia supõe, podemos notar isso pelos termos que Jesus apresenta para aceitar alguém ao seu lado. Na verdade nós é que precisamos ser aceitos por Jesus, e não o contrário como se diz irresponsavelmente. Essa conversa de que a salvação é gratuita é verdade, mas com certas considerações, e jamais sem elas.  Oferecer a salvação como a um brinde que pode ser recebido incondicionalmente, é propaganda enganosa,  uma mentira maldosa para com os pobres ouvintes.

“É impossível alguém se arrepender [segundo os padrões de Cristo] sem ter uma profunda decepção consigo mesmo”

Com esse tipo de apresentação que nos acostumamos a fazer do evangelho, não me admiro que a maior parte dos conversos abandone o caminho após uma leve ciência dos fatos, e outra parcela gigantesca das chamadas ovelhas, estejam na igreja simplesmente interpretando o personagem do cristão, após descobrirem que foram impulsionadas a optarem precipitadamente por um salvador, do qual não conheciam absolutamente nada. E o que as mantém na congregação então? É simples, disseram a elas que a salvação eterna lhes foi oferecida em troca de um consentimento verbal e público de que Jesus era o filho de Deus, o salvador. E que após essa “promoção celestial”, o que se esperava deles seria penas uma leve freqüência nos cultos, algum dinheiro, seguido do abandono de meia dúzia de maus costumes. Como dizem alguns sóbrios homens de Deus, “Nunca ninguém ofereceu tanto, por tão pouco”.

“A natureza da salvação de Cristo é deploravelmente deturpada pelo evangelista de hoje. Eles anunciam um Salvador do inferno ao invés de um Salvador do pecado. E é por isso que muitos são fatalmente enganados, pois há multidões que desejam escapar do Lago de fogo que não têm nenhum desejo de ficarem livres de sua carnalidade e mundanismo”.    A.W. Pink

Outra questão que facilitou a introdução cega do apelo foi a má interpretação da palavra Crer. No mundo secular, a palavra crer tem um significado diferente do que há na bíblia. A igreja de um modo geral, influenciada pelos reavivalistas, pegou textos sobre o tema e os interpretou segundo o contesto humano:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. João 3:16

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”. Marcos 16:16

“Quem crê nele não é condenado”. João 3:18

Num país cristão, se você perguntar as pessoas se elas acreditam em Jesus, a maioria dirá que sim, claro! Elas entendem que estamos perguntado se elas acreditam na existência da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Mas o problema é que o texto não está questionando isso. O que o texto está indagando é se a pessoa acredita no que Jesus fala, e não se acredita em sua existência pessoal. E isso faz alguma diferença? Claro, faz toda a diferença, porque se tratam de coisas absolutamente diferentes! Acreditar na existência de Cristo e de sua obra, não exige nada de mim. Mas acreditar em suas palavras significa o fim da minha vida como a conheço, significa a morte do meu ego, a extinção de minha independência, a renuncia das coisas que amo, mas que me fazem mal, e o montante de tudo isso é alto demais para que seja calculado em alguns minutos. É por isso que uma decisão dessas não pode levar apenas alguns momentos.  O apelo é a causa do exorbitante número de decisões por Cristo abortadas.

“Quem vende propostas de baixo risco são comerciantes de mercadorias falsificadas. É exatamente isso que as igrejas modernas estão oferecendo”

Em minha igreja jamais faço um apelo. E algumas pessoas me perguntam, “Mas como você sabe que alguém entregou sua vida à Cristo?” Eu respondo: É simples! Quando a vida da pessoa começa a mudar para de acordo com as escrituras, a conexão entre ela e Deus foi efetuada com sucesso.  “Disse Jesus: Pelos frutos os conhecereis…” Então assim está tudo resolvido? De forma alguma! Após uma possível decisão por Jesus, trato de informá-las que uma escolha por Cristo, foi apenas o início do jogo e não o final dele. Foi apenas o primeiro, de diversos passos que deverão se suceder até o fim de suas vidas. Embora isso afete o numero de candidatos a seguidores de Cristo, nem Jesus, nem os apóstolos jamais tiveram compromisso com as estatísticas, mas sim com a verdade. Eles procuravam construir nas pessoas uma fé firme, inabalável, que resistisse a tudo e a todos. Esse tipo de fé não se consegue com decisões instantâneas, de momento, nem com o rebaixamento dos padrões bíblicos, nem com a omissão das condições impostas por Deus.

“A menos que um homem seja posto no nível de sua miséria e culpa, toda nossa pregação é vã. Somente um coração contrito pode receber um [o verdadeiro] Cristo crucificado”.

Robert Murray McCheyne

Existe um prejuízo em seguir ao Cristo escriturístico, existe algo à perder. Se formos sinceros, admitiremos que o messias claramente dificultava a adesão de novos candidatos a discípulo como ficou evidente no episódio do jovem rico. Jesus agia assim porque diferentemente de nós, acima de tudo prezava pela verdade, e a verdade nos obriga a sermos extremamente francos e transparentes, ingredientes indispensáveis para se construir relacionamentos profundos e duradouros.

A igreja evangélica moderna, pelo menos em países pobres e em desenvolvimento, continua se expandindo sob terreno arenoso e irregular, usando técnicas de engenharia extra-bíblicas. Eles visam apenas a multiplicação do empreendimento, sem atentar para a sua solides. Fundamentos duvidosos põem em risco toda a estrutura, mas isso parece não intimidar os alto-afirmados lideres da igreja moderna.

Aos servos sinceros que ainda se preocupam com a voz do mestre, aconselho a abandonarem a fobia por novos convertidos à “sangue-frio”, e a investirem o suor em serem verdadeiros discípulos. Só assim estarão aptos para fazerem discípulos de verdade. Não confundam, a ordem do mestre não foi conseguir o maior numero de “decisões”, mas de discípulos.

 “Não procuramos enganar as pessoas para que creiam, não estamos interessados em fazer trapaça com ninguém. Nunca procuramos fazer com que alguém creia que a Bíblia ensina o que ela não ensina. Nós nos abstemos de todos esses métodos vergonhosos”.

                                                                                                                                 II Coríntios 4:2

Roberto Aguiar

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Fonte:  Frank A. Viola, “Cristianismo Pagão”.

[116] Revival and Revivalism, pp. 185-190.

[117] The Effective Invitation, pp. 94-95. Veja também  Protestant Worship: Traditions in Transition, p. 174.

[118] Finney destacou-se também por inovar em termos de apelo e por iniciar revivamentos. Empregando o que era chamado de “novas medidas”, he argüia que não havia nenhuma forma normativa do culto no NT. E tudo que tivesse êxito em trazer pecadores para Cristo seria aprovado (Christian Liturgy, p. 564; Protestant Worship: Traditions in Transition, pp. 176-177).

[119] The Effective Invitation p. 95.: O primeiro uso histórico da frase “banco de  penitente” vem de Charles Wesley .[ “Oh, aquele banco penitente santificado.” Para uma crítica completa sobre o banco de penitentes veja J.W. Nevin’s The Anxious Bench (Chamgersburg: Wipf & Stock, 1843).

[120] Protestant Worship: Traditions in Transition, p. 181; Christian History, Volume VII, No. 4, Issue 20, pp. 7, 19.

[121] Christian History, Volume VIII, No. 3, Issue 23, p. 30;  Christian History, Volume VII, No. 4, Issue 20, p. 7;  Christian Liturgy, p. 566.

[122] Revival and Revivalism, pp. 226, 241-243, 277.

[123] The Effective Invitation, p. 96.

[124]  Dictionary of Pentecostals and Charismatic Movements,  p. 904. Ainda sobre este tema, veja Gordon L. Hall’s  The Sawdust Trail: The Story of American Evangelism (Philadelphia: Macrae Smith Company, 1964). O “caminho da serragem” foi tido depois como uma garantia da eficácia do evangelista. Este uso (“percorrer o caminho da serragem”) foi popularizado pelo ministério de Billy Sunday (1862-1935). Veja Evangelism: A Concise History, p. 161.

[125] Protestant Worship: Traditions in Transition, p. 177.

HOMEM DE DORES (PARTE 2)

Na primeira parte deste texto, expliquei que a razão do enorme sofrimento que Jesus teve que passar para nos dar a salvação pode-se resumir em duas palavras: pecado e justiça. Mencionei também que essas duas palavras estão cada vez mais sendo ignoradas pelos líderes nestes últimos dias. As celebridades recebem aprovação e gargalhadas dos seus fiéis admiradores através das suas piadas, gracejos, e mensagens de paz, paz, quando não há paz (Jr 6:14). Pecado e justiça são temas irrelevantes para aqueles que se opõe ao caminho da cruz. Oferecem em seu lugar uma estrada larga e uma porta espaçosa.

Ao ver a cidade naquele estado, movido pela triste realidade em que o ser humano se encontrava e se encontra até hoje: Jesus chorou.

Mas o nosso querido Salvador não foi um homem de gargalhadas, mas de dores (Is 53:3). Já se aproximava o fim do seu ministério aqui na terra, quando Jesus, descendo do Monte das Oliveiras observou os moradores de Jerusalém perdidos nos seus afazeres. Jesus viu não apenas a situação em que se encontravam; não apenas as suas lutas e preocupações do dia a dia, mas foi mais além; Jesus viu o desespero em que a grande maioria deles se encontrará quando chegar o dia em que todos nós estaremos diante do grande trono branco, cara a cara com o Deus da justiça (Ap 20:11-12); quando os livros serão abertos e os amantes deste mundo e seus líderes receberão a pena por terem rejeitado o caminho de Cristo. Ao ver a cidade naquele estado, movido pela triste realidade em que o ser humano se encontrava e se encontra até hoje: Jesus chorou (Lc 19:41).

A minha e a sua salvação está diretamente ligada a estes dois pontos: pecado e justiça. É bem simples. A perfeita justiça de Deus exige que o pecado seja pago com a morte do pecador (Ro 6:23; Ez 18:20). Aceito o caminho de Jesus e ele paga com a Sua morte no meu lugar me dando a vida eterna, ou rejeito o caminho de Jesus e eu mesmo pago com a minha morte eterna (Jo 3:36). Conforme explicado no texto anterior, vida eterna é a contínua presença de Deus enquanto morte eterna é o Seu completo abandono. Não existe maior sofrimento no universo do que estar completamente isolado do Pai. No Calvário, Jesus passou por essa experiência: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? ” (Mt 27:46; Gl 3:13-15).

Homem de Dores, Jesus sofreu para nos dar o caminho (Jo 14:6). O caminho de Jesus é o caminho da cruz. O caminho onde negamos a nós mesmos tudo aquilo que o mundo oferece (Mt 16:24). Não é possível seguir a Jesus a menos que estejamos dispostos a sacrificar o nosso eu, se esvaziando do mundo e se alimentando somente da carne e do sangue de Cristo; tornando-se assim um com Ele (Jo 6:56).

Meu irmão, não me entenda mal, não existe ninguém mais feliz nesta terra do que a pessoa que aceita o caminho de Cristo. Mas a felicidade que experimentamos nesse caminho tem como fonte não os prazeres do mundo atual, mas sim a presença do Pai em Jesus (Jo 14:23). Somente em Jesus saciamos a nossa sede, satisfazemos a nossa fome, e nos sentimos completos (Jo 6:35). Espero te ver no céu. — Markus DaSilva

HOMEM DE DORES (PARTE 1)

Por Markus DaSilva, Th.D.

Desde pequeno ele sabia o que lhe esperava. Ainda novo, crescia no conhecimento das escrituras e via claramente que todas as profecias falavam dele (Luc 2:46-51). Cada verso que lia sobre si mesmo apontava para uma vida repleta de falsas acusações, rejeições e traições. Aqueles que deveriam estar felizes com a sua vinda seriam os seus maiores inimigos (Joa 1:11). Ninguém via isso, ninguém entendia. Estava só no princípio e seguiu só até o fim (Mat 26:40). Jesus cresceu, e exatamente como esperava, foi rejeitado dos homens; foi um homem de dores, e experimentado nos sofrimentos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, foi desprezado, e não fizemos dele caso algum (Isa 53:3).

Assim como vocês, já vi várias pinturas da crucificação, mas nenhuma delas retrata corretamente o verdadeiro rosto do nosso amado Jesus após o tratamento dado pelos torturadores, “pois o seu aspecto estava tão desfigurado que não era o de um homem” (Isa 52:14).

Queridos, por que isso? Por que Jesus teve que passar por tanta humilhação e sofrimento? Milhares de livros foram escritos sobre esse tema, mas a resposta se resume em duas palavras: pecado e justiça. Essas são duas palavras que muitos entre o povo de Deus não estão dando a seriedade que deveriam dar.

Pecado é toda a oposição a Deus. Tudo aquilo contrário ao amor, à luz, à verdade e à vida; tudo isso é pecado. Justiça, por sua vez, é a eliminação do pecado. Note que pecado não se conserta, não se restaura, não se melhora, mas se elimina com a morte eterna do pecador (Rom 6:23; Act 3:19). Se a vida eterna é estar continuamente na presença do Pai, a morte eterna é a Sua completa ausência, o Seu completo abandono. Jesus eliminou os nossos pecados com o preço correto – a morte: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mat 27:46; Gal 3:13-15).

Amados, nenhum ser humano pode compreender a grandeza do que Jesus fez por nós. Nem é necessário que compreendamos para sermos beneficiados. Mas uma coisa temos que fazer; temos que ouvi-lo com muita atenção e obedecê-lo fielmente, se queremos fazer parte do pequeno grupo cujos pecados foram pagos por Ele (Joa 14:21; Mat 7:14). Lembre-se, alguém pagará com a morte eterna pelos nossos pecados. Ou Jesus, ou nós mesmos, mas a dívida com Deus será quitada. Ouça a Jesus, abandone esse mundo por completo, viva somente para Ele enquanto ainda é possível. Espero te ver no céu.

 

NOTA: Não devemos confundir o pecador com o pecado.  O ponto principal deste texto é exaltar o sacrifício de Jesus pelo pecador. O pecador arrependido é perdoado e restaurado porque o seu pecado foi eliminado permanentemente (Heb 8:12). Mas esse pecado não foi simplesmente apagado dos livros; ele foi pago com um preço altíssimo: a morte do único filho de Deus (Rom 4:25).

Sofrimento e Sangue -Markus DaSilva, Th.D.

crownÉ inadmissível que tantos cristãos, pessoas que se dizem salvas por Jesus, não levam a sério a palavra de Deus no que diz respeito à santidade, ao morrer para o mundo e ao abandono do pecado (2Co 7:1; Cl 3:3; Mt 5:48; At 3:19-20). Alguns eu sei que é por pura ignorância, simplesmente por não terem ninguém que os instrua. Possuem líderes inúteis, que não dão o exemplo de vida que deveriam dar. Mas outros ignoram sob o argumento de que estão debaixo da graça. Erroneamente creem que a graça cancela a necessidade da santificação e lhes dá autorização para saciar os desejos da carne (Ro 6:1-3). Chamam isso de liberdade em Cristo (Gl 5:13).
 
Sabemos muito bem que no final o que salvará o indivíduo será a cruz de Cristo. Sem a cruz, ele será lançado ao fogo eterno apesar das suas boas obras. Com a cruz, ele receberá a vida eterna apesar dos seus pecados. É a cruz, e não as nossas ações, que determina o nosso destino (Ef 2:8-9). Diferente da justiça humana, não conseguimos absolvição por bom comportamento. A nossa pena de morte já foi decretada no momento que nascemos. No Éden, a raça humana foi condenada; no Calvário, a pessoa que crê será perdoada (Ro 5:13-15).
 
Irmãos, falo agora de um mistério. Ninguém sabe exatamente como isto é possível, mas quando peço a Jesus para me libertar da punição eterna, o que estou pedindo é que ele sofra no meu lugar. A justiça de Deus exige que todo o pecado seja pago com sofrimento e sangue (Hb 9:22). Cada pecado que cometo, na carne ou em pensamento, é mais dor que o Filho sofre e que o Pai observa. Note que uso o presente e não o passado, pois, o Pai não está sujeito ao tempo como nós estamos. Isso é de suma importância para nós, vivos, que ainda podemos escolher entre o caminho do pecado e o da santidade.
 
Queridos, vocês acham que não faz diferença para o Pai quando o cristão peca? Não entendem que quando pecam o preço da sua liberdade sobe? (1Co 6:20; 7:23) Mais dor, mais sofrimento, mais agonia para o nosso amado Jesus. Oh maldoso, oh impiedoso, oh desumano, oh cruel é o cristão que rejeita a santidade e diz: “Posso pecar por causa da cruz”! Espero te ver no céu.

A surpreendente história de Hiroo Onoda

A surpreendente história de Hiroo Onoda

Onoda havia treinado como oficial de inteligência no curso de comando “Futamata” (二俣分校 futamata-bunkō) da Nakano School. Em 26 de dezembro de 1944 foi enviado à ilha Lubang nas Filipinas. Sua missão, descrita em nota por Major Yoshimi Taniguchi, era a de manter-se vivo. Um trecho da nota, em uma tradução livre, diz que “Isso pode levar três anos, pode levar cinco, mas aconteça o que acontecer, nós vamos voltar até você”. Foi lhe ordenado fazer qualquer coisa ao seu alcance para dificultar ataques do inimigo à ilha, inclusive destruir o campo de pouso e o cais no porto. Suas ordens também expressavam que sob nenhuma circunstância deveria se render ou suicidar-se.

Estava lá quando a ilha foi recuperada pelos aliados em fevereiro de 1945, ao final da guerra. A maioria das tropas japonesas morreu ou foi capturada por forças americanas. Onoda e diversos outros homens, entretanto, esconderam-se na selva densa.

Onoda continuou sua campanha, vivendo inicialmente nas montanhas com os três soldados. Um de seus camaradas rendeu-se às forças Filipinas, e os outros dois foram mortos em batalhas com as forças locais – em 1954 e em 1972 – deixando Onoda sozinho nas montanhas. Por 29 anos, recusou render-se, negando cada tentativa de convencê-lo de que a guerra tinha acabado com a rendição do Imperador. Em 1960, Onoda foi declarado legalmente morto no Japão.

Para sobreviver, Onoda roubava arroz e bananas de moradores locais, e abatia vacas para obter carne.

Encontrado por um estudante japonês, Norio Suzuki, Onoda recusou-se ainda a aceitar que a guerra tinha acabado a menos que recebesse ordens para baixar armas diretamente de seu oficial superior. Suzuki se prontificou a ajudar e retornou ao Japão com as fotografias de si mesmo e de Onoda como a prova de seu encontro. Em 1974, o governo do japonês encontrou o oficial comandante de Onoda, Major Yoshimi Taniguchi, que havia se tornado um livreiro. Taniguchi foi para Lubang, cumprindo a promessa de que o buscariam, houvesse o que houvesse, informou a Onoda da derrota do Japão na segunda Guerra e ordenou-lhe a depor armas:

De acordo com a ordem Imperial, o Exército da Área XIV cessou toda a atividade de combate.
De acordo com a ordem do Comando Militar nº A-2003, o Esquadrão Especial do Comando da Equipe está dispensado de todas as obrigações militares.
Unidades e indivíduos sob o comando do Esquadrão Especial devem cessar as atividades e operações militares imediatamente e submeter-se a o comando do oficial superior mais próximo. Se nenhum oficial puder ser encontrado, devem comunicar-se com as forças americanas ou filipinas e seguir suas diretrizes.[2]

O tenente Onoda foi, assim, devidamente isentado do dever, e portanto, jamais se rendeu. Emergiu da selva 29 anos após o fim da segunda guerra mundial e aceitou a ordem do oficial comandante vestindo seu uniforme e espada, com seu rifle Arisaka 99 ainda em condições operacionais, com 500 cartuchos de munição e diversas granadas de mão, bem como a adaga que sua mãe havia lhe dado em 1944 para a proteção.

Embora tivesse matado aproximadamente trinta habitantes Filipinos locais e engajado diversos tiroteios com a polícia, as circunstâncias destes eventos foram levadas em consideração da situação, e Onoda recebeu o perdão do presidente filipino Ferdinand Marcos.

Você como cristão já abaixou as “armas” da guerra contra as hostes espirituais do mal?

Meu Passado me Impede de Ser Pastor? – Dave Harvey

Já passou pela sua cabeça que talvez o seu passado o desqualificasse para o ministério? Será que existem coisas que você já fez que levam você a se considerar inadequado para ser um líder, pastor ou plantador de igreja?

Eu sei o que você está passando. Quando eu considerei pela primeira vez a possibilidade de ser chamado, eu lutei fortemente com a impressão de que eu era culpado e desqualificado a pregar o evangelho. Uma voz do passado me dizia que eu era impuro para pregar. Isso foi o que aconteceu.

Antes de eu me tornar um pastor, eu trabalhei como chefe da segurança em uma sofisticada loja varejista. Às vezes, as coisas eram bem monótonas. Todavia, ladrões criativos ocasionalmente despertavam uma certa adrenalina. Foi assim que aconteceu um dia quando eu vigiava através de uma janela espelhada um rapaz colocar uma mercadoria cara numa sacola e depois sair da loja. Eu tentei interceptá-lo ao sair da loja, mas ele largou o que roubou e correu, deixando-me sem escolha a não ser jogá-lo no chão. Ele permaneceu violentamente não-cooperativo, então eu me senti forçado a… digamos, organizar um encontro arranjado entre a cabeça dele e o concreto. A polícia chegou, levou-o em custódia e depois ao hospital para levar os necessários pontos na cabeça.

Não foi grande coisa, certo? Certamente, no monótono mundo da segurança comercial, aquele foi um ruim nas ruas. Contudo, para a maior parte dos patrulheiros, tal evento raramente seria qualificado como um sério trabalho policial.

Mas algo engraçado aconteceu. Quando eu comecei a considerar o meu próprio chamado pastoral, eu tive essa estranha e perturbadora impressão de que eu estava amplamente desqualificado ao ministério pois eu havia “derramado sangue”. Machucar a cabeça de alguém nem de longe se compara com o que o Rei Davi fez. Estranhamente, entretanto, foi aquela passagem em que mencionava que Davi havia “derramado sangue” (1 Crônicas 28:3) que repetidamente me acusava, como se eu fosse um criminoso impuro. Eu ainda não compreendo totalmente aquilo, todavia eu nunca me esquecerei da força daquelas palavras sobre a minha alma, aterrorizando-me e me condenando. Eu estava convencido que eu não poderia ir adiante por causa daquilo que me aconteceu no passado. Felizmente, um bom pastor me acompanhou e disse, da maneira mais apropriada: “Dave, você é um idiota”.

Graças a Deus por pastores que sabem como interpretar o passado!

Você consegue se relacionar com a minha história? Alguns homens explorando a questão do chamado pastoral são aterrorizados pelo seu passado. Os pecados do seu passado pregam para eles, levando-os a questionar se eles algum dia serão aptos a subir ao púlpito.

Caso você se encaixe nessa categoria, eu quero encorajá-lo chamando a sua atenção para um cara que provavelmente foi pior do que você – um homem com um passado bem sórdido. Seu nome era Paulo.

O Pregador com um Passado

Paulo tinha uma séria bagagem no seu passado. Em 1 Timóteo 1.13, ele diz “…noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente”. Antes de se tornar um Cristão, Paulo estava em uma violenta corridacontra Cristãos. Ele queria uma inquisição. Ele queria descreditar Cristo e engenhar o colapso do Cristianismo. Ele era um predador sangrento, brutal e religioso.

Porém, o chamado de Deus sobre Paulo foi irresistível, e num momento de tirar o fôlego e cegar os olhos, Deus resgatou Paulo dos seus pecados.

Mas Paulo nunca esqueceu quem ele era. Ele não tentou enterrar ou esquecer. No livro de Atos, Paulo compartilha a sua história em duas oportunidades diferentes (Atos 22.3, 26.9). Na verdade, Paulo frequentemente liderava através da sua história (Filipenses 3.4-14, 1 Timóteo 1.12-17).

Aqui está o meu ponto: Paulo foi capaz de enxergar o seu passado de uma maneira que não o condenava, destruía, desacelerava ou conduzia por um caminho de autoacusação. Ele compreendia que Cristo, de certa maneira, virou a página da sua história. A amargura do seu passado fez Cristo muito mais doce para ele.

Você vê os primeiros capítulos da sua vida através das mesmas lentes do evangelho?

A boa notícia é que o evangelho transforma o nosso pecaminoso passado. Ao invés de uma fonte de identidade, nosso passado se torna uma fonte de testemunho. Eu fui um dia assim, porém em Cristo, agora, eu sou assim! Eu era blasfemo, agora um amante de Cristo. Eu era um arrogante oponente de Deus, agora um humilde servo de Deus. O passado não nos define mais – Cristo e a imputação da sua justiça nos define. Como Sinclair Ferguson diz, “O determinante fator da minha existência não é mais o meu passado. É o passado de Cristo”. (Sinclair B. Ferguson, Espiritualidade Cristã: Cinco Visões sobre Santificação, pág. 57).

O Pregador que sabia quando esquecer

Em Filipenses 3.13-14 Paulo diz: “Mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para que as adiante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.

Não é que Paulo negou e ignorou o seu passado. Ele simplesmente não deixou que o seu passado o definisse ou desmantelasse o seu ministério. Ele revelou como Cristo o transformou, e a sua alegria em Cristo o propulsionou adiante no ministério. Ele ousadamente se referia ao seu passado, não como fonte de orgulho, mas como testemunho do poder transformador do evangelho.

Se você está considerando o chamado para o ministério pastoral, você precisa examinar o seu passado através das lentes do evangelho. O seu passado não é irrelevante, ele simplesmente não é o fator determinante da sua vida. A justiça de Cristo – o seu passado! – é o fator determinante da sua vida. E ele é a realidade da imputada justiça de Cristo (Romanos 4.22-25) o qual silencia as acusadoras exclamações do passado.

Certamente um honesta discussão sobre o seu passado com um sábio pastor, como aquela que eu tive, o ajudará a guiar e refinar o seu senso de chamado. Pois sabedoria instantânea, considerações legais ou medidas protecionistas podem necessariamente restringir um infrator convicto de certas oportunidades ministeriais. Todavia, o seu histórico de pecados foi apagado na cruz e substituído pelo histórico da justiça de Cristo. Deus não vê mais o seu passado, Deus vê o passado de Cristo! E o Salvador que trabalha diariamente para nos salvar está sempre identificando boas obras para que nós andemos nelas, independente do nosso passado (Efésios 2.10).

Lembre-se, através do evangelho Deus vira a página da nossa história. Ele usa as tolices desse mundo para envergonhar os sábios. Ele usa o fraco para envergonhar o forte (1 Coríntios 1.27). Se você foi chamado a proclamar o evangelho, o seu passado provavelmente não é problema. Pelo contrário, você pode apontar para o seu passado e dizer: “Se Deus fez uma obra tão incrível em minha vida, ele pode fazer o mesmo por você”.

Se você está se sentindo acusado, pregue o evangelho para você mesmo e corra para o poder do Salvador que vira a nossa história!

 

Os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright pertencem a Editora Fiel.
Tradução: Paulo Santos
Revisão: Yago Martins