Ele acredita em você – Pr. Aluizio A. Silva

O maligno tem enganado as pessoas de tal forma que elas não acreditam nelas mesmas. O cristão, mesmo tendo uma nova identidade em Cristo, também não acredita em si mesmo. A maioria dos salvos não acredita que foi chamado por Deus para grandes coisas. Se você crê ele poderá usá-lo muito além do que você possa imaginar.
Os discípulos também não acreditavam que podiam realizar alguma coisa quando o Senhor Jesus os chamou. Quando Jesus chamou os seus discípulos qual era o contexto dessa chamado? Como os seus discípulos perceberam isso? Precisamos voltar até aquela época e entendermos isso dentro do contexto cultural daqueles dias.
A sociedade judaica dos dias de Jesus era bem ortodoxa. Eles criam que os livros do Velho Testamento eram inspirados por Deus, principalmente os cinco primeiro livros da Bíblia, chamados de “Torá”. Toda a instrução e alfabetização de uma criança era feita a partir da Torá.
A instrução de uma criança começava desde muito pequena, pois a ordem bíblica é para que se falasse da lei ao levantar-se, ao deitar-se e também ao sentar-se à mesa para as refeições. No entanto, a educação formal começava apenas aos seis anos de idade. O primeiro estágio da educação ia dos seis aos dez anos e era chamado “Bete Sefer” que significa “Casa de leitura”.
Nesse estágio a criança ia para uma sinagoga local onde havia um rabino que era conhecedor das escrituras e muito respeitado pela comunidade. Naqueles dias não existia a imprensa e, muitas vezes a única cópia das escrituras que existia na aldeia era a da sinagoga. Todo sábado aquele rabino pegava as escrituras e a estudava com a comunidade, mas durante a semana ele ensinava as crianças. Há dois mil anos atrás não existia nenhuma criança sem instrução em Israel, coisa que ainda hoje não conseguimos em nosso país.
Toda a instrução acontecia em torno da “torá”, os cinco primeiros livros da Bíblia (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Mas o mais impressionante era que aos dez anos a maioria das crianças já tinha memorizado toda a Torá.
No final dessa fase os alunos eram selecionados e apenas os melhores eram escolhidos para seguirem para o segundo estágio da educação, chamado “Bete Midrash” que significa Casa de estudo. Essa fase ia dos dez aos catorze anos de idade, mas apenas os melhores avançavam para ela. Todas as outras crianças que não  eram selecionadas voltavam para casa para aprenderem a profissão dos pais. 
Nesse segundo estágio a criança deveria memorizar não apenas a Torá, mas todo o Velho Testamento. Além disso eles deveriam aprender as diversas interpretações dos rabinos mais famosos. Nessa fase o alvo não era apenas a memorização dos livros das escrituras, mas os rabinos levavam cada um a raciocinar a respeito do texto bíblico. Ele sempre respondia as perguntas dos alunos com uma outra pergunta para que fossem capazes de discutir o Velho Testamento profundamente.
Você pode ver nos evangelhos que quando Jesus mencionava textos do Velho Testamento ele não dava muitas explicações, porque em geral as pessoas eram muito bem preparadas para entender as escrituras.
Depois dessa fase vinha ainda um terceiro estágio. Mais uma vez apenas os melhores alunos, aqueles que realmente se destacaram poderiam avançar para a próxima fase. O jovem, agora com catorze anos, poderia procurar um dos rabinos famosos e se apresentar para ser seu discípulo. Ele se dispunha a ser um “talmid” que significa discípulo ( O plural de talmid é talmidim).
O rabino porém era muito exigente para aceitar um talmid. Ele somente aceitava um talmid que ele acreditasse que poderia se tornar exatamente como ele. Alguém que teria a mesma capacidade intelectual, o mesmo zelo e a mesma autoridade. O rabino estudava cuidadosamente a vida daquele adolescente, sua família e sua capacidade intelectual. Ele fazia uma grande sabatina de perguntas sobre todo o Velho Testamento, sobre as diversas interpretações dos rabinos e a opinião deles acerca dessas interpretações. 
Ao fazer as perguntas o rabino estava tentando determinar se o jovem poderia:
  1. aprender todos os seus ensinamentos 
  2. aprender a pensar e agir como ele agia e 
  3. saber se ele poderia em seguida, espalhar o seu “jugo” para os outros, fazendo discípulos.
Dessa forma a grande maioria dos jovens simplesmente não era escolhida. Quando um garoto não era escolhido ele ouvia o rabino dizer: “você conhece bem as escrituras e será um bom judeu, mas infelizmente não tem as qualificações para ser meu talmid, meu discípulo. Volte para sua casa, aprenda a profissão de seu pai e seja um bom hebreu.”
Mas aqueles poucos que eram escolhidos, os melhores entre os melhores, ouviam o rabino dizer uma frase que todo menino judeu sonhava em ouvir. Eles diziam: “vem e segue-me!” Isso era o que toda criança em Israel sonhava em ouvir,  mas muito poucos chegavam nesse estágio.
Ao se tornar um talmid o jovem entrava no terceiro estágio da educação em Israel chamado “Bete Talmud” que significa casa de ensino. Nesse estágio eles se aprofundavam muito mais nos estudos das escrituras. Eles aprendiam os ensinos dos maiores rabinos da história do povo judeu.
Os talmidim se sentiam muito orgulhosos de serem discípulos e por isso quase sempre eles se mudavam para a casa do seu rabino. Eles seguiam de perto o seu mestre e imitavam tudo o que este fazia. Todo talmidim sabia que ele estava destinado a se tornar exatamente como o seu mestre, o rabino.
Quando os talmidim chegassem aos trinta anos de idade eles poderiam se tornar um rabino e terem o seus próprios talmidim.
A Bíblia não fala muito da vida de Jesus antes dos trinta anos, mas tudo indica que o Senhor passou por essas fases de educação. Quando ele tinha doze anos de idade, Lucas nos conta que ele estava no Templo discutindo com os mestres. Isso significa que ele teve Bete Sefer, ou seja, aprendeu o Torá na sinagoga da sua cidade. 
Mas para ser um rabi ele teria de receber a autoridade de um outro rabi. Era isso que lhe dava autoridade para ensinar. Certa vez os fariseus perguntaram a Jesus com qual autoridade ele fazia todas as coisas. Como resposta o Senhor perguntou se eles reconheciam o batismo de João como sendo de Deus. Ali o Senhor já estava dizendo de onde vinha a sua autoridade como rabi.
Tendo Jesus chegado ao templo, estando já ensinando, acercaram-se dele os principais sacerdotes e os anciãos do povo, perguntando: Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade? E Jesus lhes respondeu: Eu também vos farei uma pergunta; se me responderdes, também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas. Donde era o batismo de João, do céu ou dos homens? E discorriam entre si: Se dissermos: do céu, ele nos dirá: Então, por que não acreditastes nele? E, se dissermos: dos homens, é para temer o povo, porque todos consideram João como profeta. Então, responderam a Jesus: Não sabemos. E ele, por sua vez: Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas. Mt. 21:23-27
Havia uma ligação entre João Batista e Jesus, mas como essa autoridade se estabelecia?
Vamos entender quais eram as razões judaicas para o batismo
 
a. Ritual de purificação
De acordo com a Torah era preciso estar cerimonialmente puro antes de entrar no Tabernáculo ou Templo. A pureza cerimonial era requerida em muitas ocasiões e o meio mais importante de obtê-la era através de lavagem com água. A lei judaica indicava que certas atividades ou condições, tais como tocar um cadáver (Nm 19), o parto (Lv 12), ou com doenças de pele (Lev. 13:10-11) faziam com que uma pessoa ficasse cerimonialmente imunda. Nos dias de Jesus havia até um banho ritual usado para este ritual de purificação localizado na base do Monte do Templo.
 
b. Identificar-se com um ensino
Uma outra razão para que uma pessoa passasse pelo ritual de batismo de imersão ritual era para se identificar com a doutrina ou ensino particular de um mestre ou rabi. No judaísmo do primeiro século era aceito que o rabi (ou rabino) falava com a autoridade de Deus. No entanto, as várias escolas de pensamento rabínico criaram a necessidade de as pessoas se identificarem com um rabino em particular. Então as pessoas eram batizadas “em nome de” um rabino revelando uma submissão da pessoas a aquele rabino.
Aconteceu que, estando Apolo em Corinto, Paulo, tendo passado pelas regiões mais altas, chegou a Éfeso e, achando ali alguns discípulos, perguntou-lhes: Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando crestes? Ao que lhe responderam: Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo. Então, Paulo perguntou: Em que, pois, fostes batizados? Responderam: No batismo de João. Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus. Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus. At. 19:1-5
 
c. Quando um gentio se convertia ao judaísmo
A terceira razão pela qual as pessoas eram batizadas era quando um gentio desejava se converter ao judaísmo. Quando um gentio se batizava ele estava declarando publicamente a sua entrada na verdadeira fé do judaísmo.
Então, onde é que o batismo de João se encaixava nisso?
O batismo de João era um batismo de arrependimento. A pessoa se identificava com o seu ensinamento por meio do batismo que era conhecido como o “batismo de João” (Atos 19:1-5). As pessoas acreditavam que João Batista era um mensageiro de Deus, assim elas se submetiam ao seu batismo a fim de mostrar fidelidade a Deus (Mt. 21:25, Mc. 1:4).
Quando um judeu se submetia ao batismo de João estava demonstrando que ele era como um forasteiro buscando entrada no povo de Deus. Essa era uma confissão surpreendente para um judeu. Todo judeu sabia que era membro da raça escolhida por Deus, descendentes de Abraão, herdeiro da aliança de Moisés, e no entanto vinham a João para ser batizado como um gentio.
Esse ato simbolizava que eles tinham entendido que a sua descendência nacional e racial, ou mesmo a sua vocação de ser o povo da aliança, não poderia salvá-los. Eles tinham que se arrepender, abandonar o pecado e confiar no Senhor para a salvação. O batismo era um testemunho público de confissão dos pecados. Eles tinham que entrar no reino, assim como os gentios, por meio do arrependimento e da fé, que incluía uma admissão pública de pecados.
Qual foi então o propósito do Batismo de Jesus?
O propósito foi identificar-se com o ensino de João. Isso era um aval ao ministério de João e mostrava que o ministério de Cristo tinha uma ligação com o de João (Mt. 3:13-16).
Ele também se batizou para se identificar conosco como pecadores. Este foi o primeiro ato de seu ministério, o primeiro passo no plano da redenção que Ele veio para cumprir. Cristo, que não tinha pecado se submeteu a um batismo para pecadores. Ao fazer isso ele tomou seu lugar entre os pecadores e foi contado entre transgressores (Mc. 15:28). O amigo sem pecado dos pecadores foi enviado pelo Pai em semelhança da carne do pecado como uma oferta pelo pecado, e assim ele condenou o pecado na carne (Rm 8:3). “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (II Cor. 5:21) Não havia outra maneira de cumprir a justiça.
O batismo de Jesus era também um símbolo de Sua morte e ressurreição, e dessa forma ele forneceu ao batismo cristão o sentido fundamental de novo nascimento e uma nova identidade.
Finalmente, o batismo de Jesus foi a inauguração do seu ministério público. Isso ocorreu quando ele completou 30 anos. Foi nesse momento que Cristo recebeu o “smikhah”. Ele tornou-se reconhecido como alguém que ensinava com autoridade. O smikhah era o ato de um rabino passar a sua autoridade a um discípulo.
Jesus foi chamado de Rabi por membros de todos os grupos judeus reconhecidos, e atuou em todos os sentidos, como um rabino Smikhah. Em Mateus 7:28-29 lemos:
Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.
Todo rabino tinha que receber seu smikhah (ou seja, sua autoridade), de dois rabinos que também tivessem o smikhah. Aqueles dois rabinos com smikhah usavam a sua autoridade para reconhecerem o talento, o conhecimento, o caráter e a capacidade de ensinar daquele rabino. No caso de Jesus, João Batista foi o primeiro a dar a Jesus o smikhah quando Jesus foi batizado no rio Jordão por ele. O segundo foi o próprio Deus (Mt. 3:17).
Quando ele chega aos trinta anos ele está pronto para se tornar um rabino. 
Nesse momento ele já é famoso na Galiléia como rabino, mas ainda não tinha nenhum discípulo. Mas o Senhor veio para quebrar todos os paradigmas.
 
1. Ele escolheu os improváveis
Em primeiro lugar ele não ficou esperando nenhum talmidim procurá-lo, mas ele mesmo os escolheu.
Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Jo. 15:16
Quando o Senhor chamou a Pedro e a André eles estavam pescando. O Senhor vem e faz a pesca maravilhosa. Eles estavam pescando porque não tinham sido bons o suficiente para serem discípulos, talmidim de um rabino. Por causa disso seguiram a profissão dos pais.
Certamente Pedro e André tinham sonhado ouvir aquela frase, mas agora o Senhor lhes diz: “vem e segue-me!” É por isso que eles deixaram tudo na mesma hora. Um rabino famoso os estava chamando.
Depois o Senhor vê a João e Tiago. Que idade eles tinham? Certamente eram jovens com dezesseis ou dezessete anos. Eles estavam consertando redes porque ainda estavam aprendendo a profissão de seu pai que era pescador. Eles não tinham sido selecionados para serem discípulos de um rabino, mas agora eles também ouvem aquela frase que tanto tinham sonhado ouvir: “vem e segue-me!”
Certamente Zebedeu se sentiu muito orgulhoso que seus filhos se tornassem discípulos de um rabino famoso. Assim fica fácil entender porque todos rapidamente deixavam tudo para seguir o rabino Jesus.
Depois disso o Senhor viaja com eles por quarenta quilômetros até chegar a Cezaréia de Felipe. Aquela era uma cidade de Israel cheia de idolatria e devassidão. Era uma cidade construída em homenagem a César. Ali era um centro mundial de adoração ao deus Pã, uma entidade metade homem com corpo de bode. Ali havia uma gruta com a imagem desse deus que era chamada pelos judeus de porta do inferno. Ao redor daquele templo homens adoravam ao deus Pã por meio de relações sexuais com cabras.
Ali o Senhor afirmou que eles faziam parte de sua eclésia, o gabinete que iria reinar com ele. O Senhor ainda prometeu que as porta do inferno não poderiam resistir o avanço da sua eclésia.
Não dá para imaginar a emoção e a grande alegria que sentiram de terem sido escolhidos para serem talmidim com uma missão tão extraordinária.
 
2. Fomos escolhidos para ser como ele
Noutra ocasião o Senhor manda os discípulos adiante dele navegando no mar da Galiléia. De madrugada o Senhor aparece para eles andando sobre as águas. Os discípulos ficaram assustados pensado se tratar de um fantasma, mas logo o Senhor lhes disse: “Sou eu! Não temais!”
Lembre-se que um talmid deveria fazer tudo que o seu rabino fizesse e deveria ser tudo o que ele era. Lembre-se também que todo talmidim estava destinado a se tornar exatamente como o seu mestre. É por causa disso que Pedro diz: “Se realmente é o Senhor, manda que eu vá ter com o Senhor sobre as águas!” Observe que o Senhor não o repreendeu dizendo que aquilo era somente para o mestre. Mas imediatamente disse: “vem!” A frustração de Jesus não era porque eles queriam muito, mas ao contrário, o Senhor desejava que eles entendessem que poderiam ser como o rabino.
O que levou Pedro a afundar não foi a falta de fé em Jesus, mas foi a falta de fé de que ele poderia ser como Jesus. Nosso grande desafio é assumir a nossa posição como discípulos do Senhor.
Você foi escolhido para ser discípulo de Jesus porque ele acredita em você. Antes apenas alguns privilegiados eram escolhidos, mas agora ele escolheu os que não são escolhidos.
I Jo. 4:17 diz que assim como ele é nós já somos. Nós seremos glorificados no futuro, mas espiritualmente já somos como ele é hoje. Não é por nossos méritos, mas pela ação do Espírito Santo. Os talmidim deveriam ser como seu mestre; eu sou como o meu mestre Jesus.
Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, segundo ele é, também nós somos neste mundo. I Jo. 4:17

Pr. Aluizio A. Silva

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